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Rumpelstiltskin


Bruno Prado quinta-feira, 22 de março de 2018

Por Ana Cristina Alves de Paula

Enredo

Para impressionar o rei, um moleiro muito pobre inventa que a filha é capaz de fiar palha e transformá-la em ouro. O rei chamou a moça, fechou-a numa sala com palha e uma roca de fiar, e exigiu-lhe que transformasse a palha em ouro até de manhã ou ela morreria. A filha do moleiro se sentou sem poder fazer nada para salvar sua vida. Não tinha a menor ideia de como fiar a palha e convertê-la em ouro, e se assustava cada vez mais, até que, por fim, começou a chorar.
Ela já tinha perdido toda a esperança, quando apareceu um homenzinho que se ofereceu para executar sua tarefa, se ela lhe desse em troca seu colar. Logo ele começou a fiar, até que toda a palha virasse ouro.
Ao despertar do dia o rei já estava ali, e quando viu o ouro, ficou atônito e encantado, mas seu coração se tornou mais avarento. Ele fez com que a filha do moleiro fosse levada a outra sala, muito maior do que a última, e lhe ordenou que fiasse a noite inteira, se apreciava a vida. A garota que não sabia o que fazer. Estava chorando muito quando a porta se abriu de novo e o homenzinho apareceu, oferecendo-se para executar sua tarefa se ela lhe desse em troca seu anel. Ele o apanhou e começou outra vez a girar a roca, e pela manhã havia fiado toda a palha e a convertido em brilhante ouro.
 O rei ficou felicíssimo quando viu aquilo. Porém, como não tinha ouro suficiente, levou a filha do moleiro a outra sala cheia de palha, muito maior que a anterior, e disse que se ela fiasse tudo durante aquela noite, tornar-se-ia sua esposa. Tão logo a garota ficou só, o homenzinho apareceu pela terceira vez, e se ofereceu para executar sua tarefa, mas a garota não tinha mais nada para lhe dar em troca. Então o homenzinho lhe pediu que, se ela se tornasse rainha, ela lhe daria seu primogênito. Não sabendo como sair daquela situação, ela prometeu ao homenzinho o que ele queria e uma vez mais a palha foi convertida em ouro.
Quando o rei chegou pela manhã e encontrou todo o ouro que havia desejado, casou-se com ela, tornando a pobre filha do moleiro em sua rainha. Um ano depois, ela deu à luz uma linda criança, e em nenhum momento se lembrou do homenzinho. Porém, de repente, veio ao seu quarto e lhe pediu para que entregasse a ele o que ela havia lhe prometido.
A rainha ficou aterrorizada e lhe ofereceu todas as riquezas do reino para deixar sua criança. Porém, para o homenzinho, algo vivo valia muito mais que todos os tesouros do mundo. Ela começou a se lamentar e chorar tanto que o homenzinho se compadeceu dela e lhe ofereceu três dias para descobrir seu nome. Se conseguisse, então ela ficaria com a criança.
A rainha passou toda a noite pensando em todos os nomes que tinha ouvido, e mandou um mensageiro a todos os cantos do reino para perguntar por todos os nomes que havia. Quando o homenzinho chegou no dia seguinte, ela disse, um atrás do outro, todos os nomes que sabia, porém a cada um o homenzinho dizia que não era seu nome.
No segundo dia, a rainha mandou indagar a todos os vizinhos como eram chamados os servos, e repetiu ao homenzinho todos os nomes mais incomuns e singulares. Porém, ele seguia dizendo que não era este o seu nome. Ao terceiro dia o mensageiro voltou e disse à rainha que não encontrou nenhum nome novo. Porém, quando subia uma grande colina ao final de um bosque, onde a raposa e a lebre dormiam, viu ali um homenzinho muito ridículo saltando ao redor de uma fogueira e gritando:
"Faço pão hoje, cerveja amanhã.
A criança da rainha
Trazer vou, depois de amanhã.
Como sou sortudo,
A criança será minha,
Pois ninguém adivinha
Que Rumpelstilskin é o meu nome”.
A rainha ficou muito feliz ao ouvir aquele nome. Pouco depois, quando o homenzinho voltou e perguntou seu nome, ela disse Rumpelstiltskin. Ele vociferou que o diabo havia lhe contado isso e, em sua raiva, pisou tão forte com o pé direito no chão, que se afundou até o joelho. Então, na sua fúria, ele agarrou o pé esquerdo com as duas mãos e rasgou-se a si mesmo em duas metades.

Minha experiência

Rumpelstiltskin foi um dos contos que mais me impressionou durante a infância. Meu primeiro contato com a história foi por meio da série O teatro dos contos de fada (Faerie Tale Theatre), uma série estadunidense criada pela renomada atriz norte-americana Shelley Duvall (mais conhecida por seu papel no filme O iluminado) e exibida no Brasil pela TV Cultura durante os anos 90.
A ideia do programa era recontar alguns dos contos de fadas clássicos, em versões quase cinematográficas, com cenários e figurinos bastante requintados. A cada episódio era narrado um conto diferente, iniciando-se pela frase dita pela criadora da série: “Olá, eu sou Shelley Duvall. Bem-vindos ao Teatro de Contos de Fadas”. Dentre as várias histórias que foram apresentadas, estava Rumpelstiltskin, interpretado pelo ator francês Hervé Jean-Pierre Villechaize (mais conhecido por seu papel no filme 007 contra o homem com a pistola de ouro). A própria Shelley Duvall interpreta a filha do moleiro e Ned Thomas Beatty faz o papel do rei.

Rumpelstiltskin

Rumpelstiltskin
Disponível em: http://toobworld.blogspot.com.br/2013_05_05_archive.html. Acesso em: 11 mar. 2018.

O mencionado episódio se encontra disponível no YouTube, com duração de 40min. A história é ricamente encenada. A única diferença é que, nesta versão, a própria rainha descobre o nome do homenzinho, sem a ajuda do mensageiro. Vale a pena conferir.[1] Aprendi a pronunciar o nome do homenzinho capaz de transformar palha em ouro justamente por meio dessa série.
Em 1999, papai chegou em casa depois de um passeio no centro da cidade de São José do Rio Preto, para onde havíamos acabado de nos mudar, com um livro maravilhoso, intitulado Um tesouro de contos de fadas. Este livro, de fato, é um tesouro. Papai me contou uma história de que o homem que vendeu o exemplar para ele, em um dos nossos restaurantes preferidos, logo depois de receber o dinheiro, desapareceu. Esse pequeno causo me impactou de tal forma que, até hoje, na vida adulta, acredito que este livro seja mágico. Curiosamente, ele foi impresso nos Estados Unidos, e, de alguma forma, chegou às mãos de muitas crianças da minha geração. Ele contém histórias de todo o mundo, ricamente ilustradas em estilo medieval. Infelizmente esta edição está esgotada, mas pode ser encontrada facilmente na internet.

Rumpelstiltskin

Rumpelstiltskin

A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso nesta história é justamente uma das ilustrações deste conto que se encontram no livro. Coloco-a aqui abaixo:

Rumpelstiltskin

 Essa história serviu como base para um episódio do desenho Cavalo de Fogo, desenho animado produzido por Hanna-Barbera nos anos 80. Neste episódio, Dorin e Brutus caem num buraco e são ajudados por um troll que, como pagamento, exige a posse do cavalo Brutus. A princesa Sara e o Cavalo de Fogo intervêm, e o troll os desafia a encontrar a casa dele e adivinhar o nome dele; caso contrário, o Cavalo de Fogo se juntaria a sua coleção.
Em um episódio do desenho animado Coragem, o Cão Covarde, Muriel é forçada por um pequeno escocês a ficar em uma torre e tecer lã de ovelha em kilts. Coragem tenta aprender o nome do homem ao saber que ele não vai deixar que ninguém que saiba o seu nome trabalhar para ele. Seu nome seria Rumpoldkiltskin. Muriel depois sugere a ele mudar legalmente seu nome, sugerindo Rumpelstiltskin, nome que ele acha ser uma boa ideia.[2]
No desenho Clube das Winx, Rumpelstilskin é libertado do livro Legendarium pela bruxa Selina, a mando das Trix, para atrapalhar as Winx. Ao ouvir a fada Musa cantar, ele fica admirado com a beleza da voz dela e decide lhe roubar a voz. Bloom decide fazer um acordo com ele e lhe entrega o criador do livro, o malvado mago Acheron, em troca da voz de Musa e da chave para lacrar o livro. Rumpelstilskin aceita imediatamente a troca e, após uma dura batalha contra as Trix, Bloom vence e retorna para lacrar o livro para sempre.
No filme Deu a louca na Cinderela, descobre-se que Rumpelstiltskin conseguiu o bebê e se tornou o braço direito da Madrasta Frieda, que é a vilã principal e tem por objetivo tomar o controle do mundo de contos de fada, fazendo com que os vilões vençam e que os finais das histórias jamais sejam felizes novamente.
Posteriormente, fui reencontrar Rumpelstiltskin no filme Shrek para sempre, quarto e último filme da franquia de filmes de animação que revisitou os contos de fada, fazendo diversas referências humorísticas e satíricas à cultura popular ocidental (o que a torna, em parte, dedicada a um público mais maduro). O ogro Shrek enfrenta o ambicioso e arrogante Rumpelstiltskin, que deseja tornar-se rei da Tão, Tão Distante.[3]

Rumpelstiltskin
Disponível em: http://2.bp.blogspot.com/_QOO7_-padu0/S8NB8-JlIiI/AAAAAAAAAxY/-kwXbeOr_Gs/s1600/Shrek_Para_Sempre_09.jpg. Acesso em: 11 mar. 2018.

Rumpel oferece para Shrek um dia para viver como um ogro de verdade outra vez, em troca de um dia de sua infância que ele não iria se lembrar de ser apagado. Shrek assina o contrato e aparece em uma realidade na qual ele ainda é temido pelos habitantes locais do município. Todavia, Rumpel fez com que Shrek lhe desse justamente o dia de seu nascimento.

Rumpelstiltskin
Disponível em: http://2.bp.blogspot.com/_QOO7_-padu0/S8NB8-JlIiI/AAAAAAAAAxY/-kwXbeOr_Gs/s1600/Shrek_Para_Sempre_09.jpg. Acesso em: 11 mar. 2018.

O acordo que ele tinha feito com Shrek só podia ser desfeito se ele beijasse a Princesa Fiona, mas ela não o amava. Mas ao longo do filme, ela se apaixona por ele e o beija antes que ele desapareça, anulando o contrato e restaurando o mundo como era antes.
Em 2011, estreou a série estadunidense de drama e fantasia Once Upon a Time, segundo a qual vários personagens de contos de fadas foram trazidos para o mundo real e tiveram suas memórias originais roubadas por uma maldição poderosa. As primeiras seis temporadas se passam na cidade fictícia de Storybrooke, com Rumpelstiltskin (interpretado por Robert Carlyle) como um dos personagens principais.  O nome de Rumpel em Storybrooke, "Sr. Gold", vem da característica do personagem de transformar palha em ouro.

Rumpelstiltskin
Disponível em: http://www.purebreak.com.br/midia/a-6470.html. Acesso em: 11 mar. 2018.

Os episódios geralmente têm um segmento que dá detalhes das vidas dos personagens no passado, que, quando colocados em ordem, adiciona uma peça ao enigma dos personagens e sua conexão com os eventos que precederam a maldição e suas consequências. Ao longo da série, descobre-se que Rumpel é a Fera do conto A bela e a fera, e o crocodilo na história de Peter Pan.
Vale a pena assistir a clássica cena da dança entre Rumpel e Bela durante a série.[4]
Descobri, por um acaso, que a Xuxa fez uma versão da história no programa Xuxa no mundo da imaginação, exibido na Rede Globo.[5]
Os contos dos Irmãos Grimm são recheados de lições de morais e saberes atemporais que os tornam pertinentes serem contados atualmente. Rumpelstiltskin não é diferente. A heroína do conto é uma jovem bonita, mas pobre. E, como heroína, sabemos que ela irá resgatar e salvar algo.
Muitas histórias dizem que os duendes fazem o trabalho por nós, o que é o caso aqui. Entretanto, ele pede por três vezes algo de valor em troca, mostrando que ela também deve dar algo dela mesma nesse esforço e que deve aprender a negociar. Ao fim da terceira noite, Rumpel ofereceu o que parecia ser a única via de fuga. E, assim, a jovem desesperada jurou que lhe daria seu primogênito em troca de sua liberdade.
A questão das três provas é comum nos contos de fadas. Ao terminar pela terceira vez de fiar, o rei resolve se casar com a moça, mas ela se esquece do duende, um ato de irresponsabilidade, pois ele volta com mais força assim que ela dá à luz seu primeiro filho.
Para a filha do moleiro, havia apenas uma maneira de fazer Rumpel desaparecer. Ela deveria adivinhar seu nome corretamente e pronunciá-lo em voz alta. Assim, ela resgata seus impulsos maternos. O amor de uma mãe por seu filho é mais valioso que ouro e como prova ela precisa conhecer o nome do duende. Isso significa que ela precisa nomear seu conflito. Na psicoterapia, quando damos um nome ao conflito, alcançamos mais consciência.
Com a ajuda do mensageiro, ela descobre o nome e, repentinamente, sente um pouco de seu poder restaurado. Ela não estava mais à mercê de Rumpelstiltskin.
Como todo conto tem uma lição de moral, esse não é diferente: mostra que a boa fé e a honestidade compensam. Tudo o que fazemos gera um resultado. Ou seja, pode acontecer algo bom ou ruim. O homenzinho se aproveita das fragilidades da jovem filha do moleiro, aprisionada pelo rei numa sala para transformar palha em ouro, e a manipula para fazer escolhas delicadas por pura ganância. Mas o elo que existe entre uma mãe e seu filho é uma ligação tão forte que ela se entrega ao esforço de descobrir o nome do homenzinho que não lhe ajudou gratuitamente para salvar a sua criança e a si mesma, e assim ter uma chance de ser feliz em sua própria história.




[1] Link: https://www.youtube.com/watch?v=ZevUDlfqyo4. Acesso: 11 mar. 2018.
[2] Infelizmente não encontrei este episódio disponível no YouTube.
[3] Trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=TlRgGvROYOM.
[4] Link: https://www.youtube.com/watch?v=ILz6qL6ZJgc.
[5] Link: https://www.youtube.com/watch?v=0NzKJhmJQq8.

O soldadinho de chumbo – Hans Christian Andersen


Bruno Prado sexta-feira, 16 de março de 2018
Por Ana Cristina Alves de Paula


O soldadinho de chumbo – Hans Christian Andersen

Enredo
Clássico da literatura infantil, o livro conta a história de um boneco – um soldadinho de chumbo – que era diferente de todos os seus companheiros de caixa. Como ele foi o último a ser fundido e faltou chumbo para completá-lo, o artesão o deixou sem uma perna. Por isso, foi modelado para ficar firmemente de pé sobre uma perna, o que o tornava bastante notável.
Ele, assim como os demais soldadinhos da caixa, era muito bonito e elegante, cada qual com seu fuzil ao ombro e um esplendido uniforme vermelho e azul. Tinham o rosto de soldados corajosos e aguardavam ansiosamente o momento em que passariam a pertencer a alguma criança, pois assim poderiam viver muitas aventuras. O tão sonhado dia chegou, e a caixa foi dada como presente de aniversário a um menino.
Ele ficou maravilhado e logo colocou os soldadinhos em ordem à mesa. Dali o soldadinho conseguia ver todos os outros brinquedos, entre os quais uma bailarina que estava à porta de um grande castelo de papel. A bailarina, também de papel, era muito bonita: seu lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos negros, presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina rosa de ouropel; usava musselina clara, com um laço azul entre os ombros, como um cachecol; tinha os braços erguidos em arco sobre a cabeça e uma das pernas dobrada para trás, tão dobrada, mas tão dobrada, que acabava escondida pela saia. O soldadinho apaixonou-se imediatamente por ela e pensou que, tal como ele, aquela boneca tão linda tivesse uma perna só.

 
Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/421438477608261276/. Acesso em: 09 mar. 2018.

Para espiar melhor a pequena e delicada dama, que continuava a se erguer sobre uma perna, sem perder o equilíbrio, ele se deitou completamente na mesa, atrás de uma caixa de rapé, e ali ficou até a manhã seguinte, quando o menino o colocou no parapeito da janela. Se foi a corrente de ar, não se sabe; porém, a janela se abriu e lá se foi o soldado, caindo do terceiro andar de cabeça na rua.
O seu dono foi a correr procurá-lo, mas não o encontrou. Pouco depois, passaram por perto dois meninos. Um deles viu o soldadinho de chumbo e teve a ideia de colocá-lo em um barquinho de jornal para navegar pela sarjeta.  Apoiado na sua única perna, com o mosquete ao ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. Com o coração a bater fortemente, o soldadinho voltava todos os seus pensamentos para a bailarina, que talvez nunca mais voltasse a ver.
  
Disponível em: http://www.hcandersen-homepage.dk/?page_id=46500. Acesso em: 09 mar. 2018.

O barquinho balançava para cima e para baixo e, de repente, foi lançado sob uma ponte que fazia parte de um bueiro. Quando menos esperava, apareceu um enorme rato d’água que vivia por ali, que lhe perguntou se ele tinha autorização para navegar. O soldadinho permaneceu em silêncio, e o barquinho continuou seu caminho incerto e ligeiro, levado pela correnteza. Os gritos do rato exigindo a autorização foram ficando cada vez mais distantes, até sumirem.

Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz. Dessa vez era uma enorme claridade. Ficou aliviado.  Navegar pelo esgoto escuro não era nada agradável. Mas os problemas do pequeno soldado de uma perna só ainda não haviam acabado. A água do esgoto desembocava em um rio... o barquinho se desmanchou, e o soldadinho, por ser de chumbo, afundou, caindo, caindo, até parar no fundo do rio. Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, ao vê-lo, o engoliu. O soldadinho estava numa imensa escuridão mas não deixava de pensar na sua amada.
Passou-se muito tempo até que, de repente, a escuridão desapareceu. O peixe foi fisgado por um pescador, levado ao mercado e vendido. A cozinheira que comprou o peixe para fazer um ensopado, por pura coincidência, talvez por destino, trabalhava na casa do menino que havia ganhado o soldadinho aniversário. Ao limpar o peixe, a mulher tirou o soldadinho da barriga do peixe e levou-o diretamente ao garotinho, que fez a maior festa ao revê-lo.
Depois de limpo, o soldadinho foi colocado sobre a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela. Nada havia mudado. Estava tudo lá: o castelo de papel e, à sua porta, a bailarina, sempre na mesma posição, com os braços erguidos acima da cabeça. Parecia ainda mais bela. Vê-la tocou tanto o soldadinho que ele quase chorou lágrimas de chumbo, mas as segurou. Ela também olhou para ele, mas não trocaram nenhuma palavra. Sentiam-se felizes por estarem novamente juntos. Ele gostaria de lhe contar toda a sua aventura. Talvez a linda bailarina apreciasse sua coragem. Quem sabe, até se apaixonaria por ele?
Enquanto o soldadinho pensava em como se aproximar da bailarina, o garotinho brincava com seu peão, distraído. Neste instante, o irmão caçula do garotinho pegou o soldadinho e, sabe-se lá o porquê, atirou-o na lareira, em meio às labaredas do fogo.

Kay Nielsen (1924). Disponível em: https://illustratornate.wordpress.com/tag/kay-nielsen/. Acesso em: 09 mar. 2018.

O pobre soldadinho sentiu o calor das chamas que faziam seu corpo amolecer. Já não tinha mais roupas, pois o fogo as consumiu. Ele ainda laçou um último olhar para a bailarina, como despedida, e ela o retribuiu com silêncio e tristeza. Podia-se ver uma pequenina lágrima escorrer pelo seu rosto.  De repente, a janela escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar o castelo de papel e a bailarina. Ela flutuou como uma sílfide e caiu diretamente na lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente. 
Na manhã seguinte, a arrumadeira, ao limpar a lareira, encontrou no meio das cinzas um pequenino coração de chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor. Da bailarina só restou a rosa de ouropel de sua tiara. Ela se abaixou e guardou os dois juntos, para que nunca mais se separassem.

Minha experiência
O soldadinho de chumbo é um conto de fadas escrito por Hans Christian Andersen, e publicado pela primeira vez em 1838. Foi o primeiro conto escrito totalmente pelo autor e não tem um final feliz.
Meu primeiro contato com a obra foi por meio da extinta coleção Disquinho, lançada pela gravadora Continental em 1965, em compactos discos de vinil coloridos. Cada disco trazia quatro histórias cheias de músicas e interpretadas pelo Teatro Disquinho, com a narração de Sônia Barreto. As músicas eram compostas e adaptadas por João de Barro e orquestradas por Radamés Gnattali. Caso tenham interesse, a história do soldadinho de chumbo se encontra disponível no YouTube.[1] O meu era de cor azul, e me foi repassado por meu irmão mais velho. Passei muitas tardes ao pé do toca discos da minha mãe ouvindo essa história...

O soldadinho de chumbo – Hans Christian Andersen
Disponível em:
https://nostalgiarama.blogspot.com.br/2015/04/colecao-disquinho- e-discao.html.
Acesso em: 10 mar. 2018.

Quando completei 6 anos, em 1999, meu pai me presenteou com uma coleção elaborada pelo jornal Folha de São Paulo chamada As melhores histórias de todos os tempos. Os que me leem ainda me ouvirão falar muito sobre essa coleção. O volume 7 contém justamente a história do soldadinho de chumbo — que, curiosamente, é de latão no texto original –, adaptada por Marcus Jardym e narrado por Miriam Ficher (conhecida por mim como a dubladora de Meg Ryan, Nicole Kidman, Angelina Jolie e tantas outras atrizes consagradas).

O soldadinho de chumbo – Hans Christian Andersen

Esta versão adaptada apresenta um final muito diferente, no qual a bailarina e o soldadinho se casam e, enquanto os seres humanos dormem, eles dançam apaixonadamente.
A história foi adaptada para um dos segmentos do filme de animação Fantasia 2000, trigésimo-oitavo longa da Walt Disney Animation Studios. Este segmento é completamente animado em 3D e a arte e o design dos personagens foram aproveitados da arte de Bianca Majolie (que trabalhara no primeiro filme de Fantasia), e foi embalado por um trecho da composição Concerto de Piano Número 2 em Fá Maior de Dmitri Shostakovich.[2]

O soldadinho de chumbo – Hans Christian Andersen
Disponível em: https://silasig.blogspot.com.br/2015/12/fantasia-2000.html. Acesso em: 10 mar. 2018.

O mesmo conto também serviu de inspiração para os soldadinhos do filme Toy Story, produzido pelos estúdios Pixar, e para o autor guatemalteco Julio Calvo Drago, que escreveu o conto O mistério do coração cinza, um thriller de brinquedo, publicado no livro Não era uma vez...Contos clássicos recontados, da editora Melhoramentos.
Descobri recentemente a música A bailarina e o soldado de chumbo, do grupo Teatro Mágico. A letra é muito delicada. Vale a pena ouvir.[3]
Para mim, o soldadinho de chumbo é um conto de amor que retrata, à maneira dos românticos do século 19, a atração de opostos – um homem melancólico e tímido, tão diferente dos demais soldadinhos de chumbo por ter apenas uma perna, e uma donzela quase etérea: uma bailarina que vive num castelo de sonhos e o ama, apesar de todas as contingências e contrariedades. O amor ingênuo entre o soldadinho de chumbo e a bailarina, tornado impossível por força do destino, é extremamente comovente. Infelizmente, o amor do soldadinho pela bailarina e sua determinação não o aos braços de sua amada nem o permitem viver seu final feliz...
Destaque-se o quão raro é encontrar na literatura infantil um conto que retrate o herói da história como uma pessoa com deficiência. A igualdade de oportunidades e a não discriminação são temas trabalhados neste pequenino conto, retratando a importância do respeito e da valorização da diversidade humana. Pessoas com deficiência são facetas do mosaico de diferenças humanas, e apresentam particularidades, fraquezas e fortalezas, como qualquer outra pessoa.
A figura do soldadinho se faz presente no nosso cotidiano e nos ensina a conviver e a respeitar as nossas diferenças, e, acima de tudo, a se dedicar àqueles que amamos. Penso que o amor verdadeiro seja exatamente assim:
O amor é paciente e benigno, não arde em ciúmes; o amor não se ufana, não se ensoberbece. O amor não é rude nem egoísta, não se exaspera e não se ressente do mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Está sempre pronto para perdoar, crer, esperar e suportar o que vier.[4]

E, tal qual a bailarina do conto, desejo que nada abale o meu sentimento, e que ele resista a qualquer dificuldade ou provação. Que possamos permanecer unidos nos momentos ruins e celebrar todos os momentos alegres juntos.
Este conto é uma lição de vida. Apenas o amor pode eliminar barreiras.


Disponível em: mamonna.deviantart.com. Acesso em: 09 mar. 2018.




[1] Link: https://www.youtube.com/watch?v=ttEa2hdHKNQ.
[2] Link: https://www.youtube.com/watch?v=gFanayBhyeA.
[3] Link: https://www.youtube.com/watch?v=1gteR4v5aDk.
[4] Frase do livro Um amor para recordar, de Nicholas Sparks.
Sobre mim
Formado em Licenciatura em Letras pela Unesp de São José do Rio Preto, SP, onde fiz vários trabalhos na área de etimologia e linguística românica. Tenho muito interesse em linguística e línguas, principalmente as românicas, análises textuais, discursivas, traduções e comparações entre elas.